A vida por um fio
Foi
ontem. Parece que foi ontem, mas já passou mais de um ano e ainda te sinto. O teu
olhar, o teu cheiro. Ainda te vejo sentado no sofá de queixo caído a ouvir as
notícias com a garrafa de água com o teu nome ao teu lado. Ainda te vejo com ar
de contentamento por me veres chegar. Dou-te um beijo, pergunto-te como estás e
respondes sempre a mesma frase articulando sempre as mesmas palavras “Estou
velho minha filha”. Falo-te do meu dia e do dia dos teus. As horas passam e
continuas o mesmo. Chego a casa feliz por te ter visto por mais um dia. Até ao
dia. Até ao dia em que não me deste oportunidade para te ter dado um último
beijo, para pegar na tua mão olhar para ti e ver-me a mim. Sim, as nossas
diferenças, interiormente, são poucas. Deixas-te muito de ti em mim e talvez
seja por isso que todos os dias ao deitar me lembro de ti. É por isso que
quando me olho ao espelho, qualquer traço meu faz lembrar o teu. Dói pensar que
já não estás aqui. Dói olhar para o teu quarto, que tantas memórias guarda, e
não te ver ali, ver a tua cama completamente vazia. Eras um porto seguro quando
eu não tinha para onde ir. Ainda hoje és, nem que seja na minha imaginação, no
meu subconsciente, no meu eu. Ainda hoje és. E vais ser sempre. Deixas-te muito
de ti em mim.
Sem comentários:
Enviar um comentário