quarta-feira, 13 de junho de 2012


A vida por um fio

                Foi ontem. Parece que foi ontem, mas já passou mais de um ano e ainda te sinto. O teu olhar, o teu cheiro. Ainda te vejo sentado no sofá de queixo caído a ouvir as notícias com a garrafa de água com o teu nome ao teu lado. Ainda te vejo com ar de contentamento por me veres chegar. Dou-te um beijo, pergunto-te como estás e respondes sempre a mesma frase articulando sempre as mesmas palavras “Estou velho minha filha”. Falo-te do meu dia e do dia dos teus. As horas passam e continuas o mesmo. Chego a casa feliz por te ter visto por mais um dia. Até ao dia. Até ao dia em que não me deste oportunidade para te ter dado um último beijo, para pegar na tua mão olhar para ti e ver-me a mim. Sim, as nossas diferenças, interiormente, são poucas. Deixas-te muito de ti em mim e talvez seja por isso que todos os dias ao deitar me lembro de ti. É por isso que quando me olho ao espelho, qualquer traço meu faz lembrar o teu. Dói pensar que já não estás aqui. Dói olhar para o teu quarto, que tantas memórias guarda, e não te ver ali, ver a tua cama completamente vazia. Eras um porto seguro quando eu não tinha para onde ir. Ainda hoje és, nem que seja na minha imaginação, no meu subconsciente, no meu eu. Ainda hoje és. E vais ser sempre. Deixas-te muito de ti em mim. 

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